Passo as noites no ofício de dividir as quinquilharias que acumulei na vida entre os quartos que já foram meus. As gavetas de dezenas de porta-jóias, as portas dos armários, tudo transborda meu vazio. Um vazio que é preciso manter em ORDEM, sob o risco do vazio desabar no abismo.
Ao fundo, uma daquelas musiquinhas irritantes que saem do porta-jóias enquanto a bailarina dança - linda, alienada, morta.
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11/11/2010
27/09/2010
Tentáculos
Vaso remendado traz na pele a marca da queda.
O acidente é o momento máximo de sua existência, é o que o constitui.
Ainda que o tenham convencido de que ele é frágil e que tem que se preservar; ainda que ele tenha criado medo do espinho vermelho-fresco; ainda que tenham se acumulado a poeira e as teias de aranha; ainda que a ideia do cheiro não seja mais que uma ideia.
Ainda assim.
Seu maior desejo continuará sendo a beirada da mesinha estreita da sala, ele, cheio d'água até a boca.
Bobo do vaso.
Sou vaso rachado, e, como é da minha natureza, não tenho medo de quebrar de novo.
Só que criei manias. E cismei que, agora, água rala não me basta.
É que hoje escorro fácil por vias tortas, dispersa nos mil atalhos dos meus pés-de-galinha.
Tenho muito a oferecer, mas muito a perder, e cansei de me desperdiçar. Minha porcelana não se acha na assistência técnica.
Decidi o seguinte: quero que me encham de terra bem molhada e plantem as rosas nas minhas entranhas.
Devo avisar que não tenho alças, mas tentáculos.
O acidente é o momento máximo de sua existência, é o que o constitui.
Ainda que o tenham convencido de que ele é frágil e que tem que se preservar; ainda que ele tenha criado medo do espinho vermelho-fresco; ainda que tenham se acumulado a poeira e as teias de aranha; ainda que a ideia do cheiro não seja mais que uma ideia.
Ainda assim.
Seu maior desejo continuará sendo a beirada da mesinha estreita da sala, ele, cheio d'água até a boca.
Bobo do vaso.
Sou vaso rachado, e, como é da minha natureza, não tenho medo de quebrar de novo.
Só que criei manias. E cismei que, agora, água rala não me basta.
É que hoje escorro fácil por vias tortas, dispersa nos mil atalhos dos meus pés-de-galinha.
Tenho muito a oferecer, mas muito a perder, e cansei de me desperdiçar. Minha porcelana não se acha na assistência técnica.
Decidi o seguinte: quero que me encham de terra bem molhada e plantem as rosas nas minhas entranhas.
Devo avisar que não tenho alças, mas tentáculos.
21/06/2010
Atrasada para o chá
Andava sobre a cidade tentando se equilibrar em pedaços de tábua que desabavam pro infinito. Onde não havia tábuas, tinha que se segurar, de um lado, em pedaços de arame farpado e, de outro, numa cabeça de homem que pendia de algum teto invisível.
Tinha a impressão de que a cabeça estava viva. Era capaz de ouvir as batidas do coração da esfera sem corpo. Vez por outra, ela ainda parecia lhe sorrir zombeteira, para seu horror.
Sabia que precisava encontrar uma saída e se deparou com uma porta de vidro muito antiga e muito alta. Desceu feito mulher-aranha e eis que se viu com as-pessoas-da-sala-de-jantar.
Tentou explicar tudo (?), mas o fôlego lhe faltava. Continuaram comendo e falando baixo, até que alguém a encaminhou ao lavabo: estava coberta de sangue.
Tinha a impressão de que a cabeça estava viva. Era capaz de ouvir as batidas do coração da esfera sem corpo. Vez por outra, ela ainda parecia lhe sorrir zombeteira, para seu horror.
Sabia que precisava encontrar uma saída e se deparou com uma porta de vidro muito antiga e muito alta. Desceu feito mulher-aranha e eis que se viu com as-pessoas-da-sala-de-jantar.
Tentou explicar tudo (?), mas o fôlego lhe faltava. Continuaram comendo e falando baixo, até que alguém a encaminhou ao lavabo: estava coberta de sangue.
04/02/2010
Meu pequeno príncipe
Qual seria o gosto de seu único beijo?
Um beijo às escondidas, do qual nem nós mesmos teríamos notícias.
A vida continuaria como sempre foi: a sua, como um dominó cujas peças vão caindo em sincronia perfeita, ao som da firmeza irritante de seu caráter; a minha, com a mesma “flexibilidade” leviana da qual finjo me orgulhar, porque me diferencia de xiitas como você.
Com esse beijo, que seria como se não tivesse sido, não precisaríamos mais nos desprezar, e nos libertaríamos do constrangimento de sentir o coração parar em rápidos olhares que nos prometem o Jardim do Édem.
Não sou mais a menina de saia curta e pernas finas que puxou fitas cor-de-rosa do bolo de 15 anos na esperança de encontrar a aliança escondida no meio do glacê.
Muitas vezes o ar me faltou, e perdi a conta de quantas vezes caí num buraco escuro que pensei que fosse sem fundo.
Mas pra você, e pra ninguém mais, guardaria meu único beijo.
Um beijo às escondidas, do qual nem nós mesmos teríamos notícias.
A vida continuaria como sempre foi: a sua, como um dominó cujas peças vão caindo em sincronia perfeita, ao som da firmeza irritante de seu caráter; a minha, com a mesma “flexibilidade” leviana da qual finjo me orgulhar, porque me diferencia de xiitas como você.
Com esse beijo, que seria como se não tivesse sido, não precisaríamos mais nos desprezar, e nos libertaríamos do constrangimento de sentir o coração parar em rápidos olhares que nos prometem o Jardim do Édem.
Não sou mais a menina de saia curta e pernas finas que puxou fitas cor-de-rosa do bolo de 15 anos na esperança de encontrar a aliança escondida no meio do glacê.
Muitas vezes o ar me faltou, e perdi a conta de quantas vezes caí num buraco escuro que pensei que fosse sem fundo.
Mas pra você, e pra ninguém mais, guardaria meu único beijo.
05/11/2009
Vendida
Ando pelo mundo lânguida e desinteressada das coisas como uma gata velha.
Tenho minha almofada, tenho minha ração.
Recebo de bom grado os afagos desatentos de quem passa.
É hipocrisia ou instinto de sobrevivência o que me impede de enxergar as redes na janela?
Mimetizo-me, mas sempre gata:
me faço de tola enquanto engulo passarinhos pelos cantos da casa.
Tenho minha almofada, tenho minha ração.
Recebo de bom grado os afagos desatentos de quem passa.
É hipocrisia ou instinto de sobrevivência o que me impede de enxergar as redes na janela?
Mimetizo-me, mas sempre gata:
me faço de tola enquanto engulo passarinhos pelos cantos da casa.
04/10/2009
Medo da luz acesa
Se entregava em sacrifício para provar ao mundo a absoluta falta de sentido do fazer parte.
Sentia um misto de tédio e prazer quando, por repetidas vezes, lhe faziam a mesma pergunta desinteressada:
"Por onde você anda?"
Permanecia no oculto.
Quando a criança desconfiada vinha à tona, se escondia n'algum canto, olhos por detrás das páginas de um livro.
Sozinha, sentia falta de vida. Misturada, sentia saudade da solidão. Era nalgum estágio intermediário que se aceitava, mas não sem luta.
Reclamavam que falava pouco. Mal sabiam dos vulcões que aguentava explodirem no peito a cada mudança de cenário.
Sentia um misto de tédio e prazer quando, por repetidas vezes, lhe faziam a mesma pergunta desinteressada:
"Por onde você anda?"
Permanecia no oculto.
Quando a criança desconfiada vinha à tona, se escondia n'algum canto, olhos por detrás das páginas de um livro.
Sozinha, sentia falta de vida. Misturada, sentia saudade da solidão. Era nalgum estágio intermediário que se aceitava, mas não sem luta.
Reclamavam que falava pouco. Mal sabiam dos vulcões que aguentava explodirem no peito a cada mudança de cenário.
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