Caminho pela cidade desabitada.
Corações desabitados?
Há solidão em tudo, desagregação mortal, desespero inventado.
Há histórias vazias, paixões previsíveis, sinais do fim, glórias inglórias, vitórias falsas.
Caminho pela cidade desabitada.
E vejo monumentos erguidos na terra.
Mas vou antes, em sua carne e seu sangue. Tento ler sua mensagem, só importa a travessia.
Tenho uma nostalgia do que desconheço, do que é encanto sobre nada.
Caminho pela cidade desabitada.
Brinquedos choram nos parques. Vozes que querem apenas ser ditas.
Mãos que se abstém de mãos. Beijos sem lábios. Presença de ausências.
Corpos sendo metralhados na escuridão.
Caminho pela cidade desabitada.
E a cidade me destitui de amargura. Ainda há um olhar olhando.
Não quero a esperança, nem o perdão.
Quero abraçar o tempo. Atravessar em meu peito um punhal vocabular.
Derrota por derrota chegamos à luz redentora.