19/02/2008

Portas (Poema para as Paredes)

Recuse o reconhecimento
Dos idiotas que só aplaudem
A forma gramatical do sofrimento.
Para quem a poesia é bálsamo,
O cinema é ópio
E a música, êxtase
Naquele instante em que se lê,
Se vê,
Se escuta,
E depois se esquece.

E depois se esquece porque a atenção
Se fixa na matéria tangível
Que molda o inútil do mundo:
Minhas mãos, minhas roupas,
O meu rosto no espelho.
O meu interesse pelo seu dia
Ou pelo clima da cidade.
Pela crítica feroz, a rivalidade,
O nosso bom gosto,
A sinceridade excessiva
Que pretendemos qualidade.
O dinheiro que falta ou excede,
O pensamento bobo e o tédio,
O riso solto, os medos egoístas
Parasitas de si mesmos,
Vampirizando essência e sangue,
E esgotando lirismo
Porque o mundo tem que ser concreto
E lúcido.
E os prazeres do ego
Serão a cal que jogamos úmida
Em tudo o que é infinito.

A minha utopia é me ver evoluído,
Aceitando a noção de que o que tenho em mim
É a eternidade do silêncio,
A impotência dos analfabetos
E a escuridão dos cegos.
Um poema só existe e merece ser sentido
Depois de lido e para sempre.
Um filme só é visto e pensado
Depois do fim e durante a vida,
Assim como a melhor música
É aquela que só toca na incansável vitrola da memória.

Léo Tavares

3 comentários:

Bic disse...

Palavras ditas, escritas e lidas, contam verdades interiores que tocam a alma, dão as cores dos humores. A arte tem um tempo pra ser sentida, apreciada, onde podemos perceber com o tempo o seu peso e seu valor.

Gostei do seu poema Leo Tavares!

Ele me dá a impressão de maturidade e reflexão, sóbrio e lírico.

Fabi disse...

Aceitar o que se tem, eis uma tarefa difícil. Léo eu me surpreendo sempre com as tuas poesias.São cada vez mais maduras.
Lindo tudo, adorei,degustei cada palavra.

Léo disse...

"os idiotas que só aplaudem
A forma gramatical do sofrimento" são os mesmo que colocam os tostões em nosso bolsos. Eles comprimem a arte e a moldam de acordo com seus "objetivos específicos", de forma a atender aos padrões normais de produtividade.
Estamos com um problema: "Um poema só existe e merece ser sentido
Depois de lido e para sempre", mas se os idiotas (aqueles) esgotam o lirismo, como poderemos sentir berro da madrugada em nosso ouvidos?.