20/02/2008

Campos de Carvalho sampleado

não fui claune
mas nunca é tarde

já passei muito por louco
prum louco verdadeiro faltou coragem ou audácia
sem a qual não se move palha
nesse mundo de espantalhos
tão pobre de palhaços

PROFISSÃO: LOUCO
é o tema da exposição de um fotógrafo
em que me vejo de corpo inteiro
ou melhor pelo avesso entranhas à mostra
esfolado vivíssimo mostrando as garras
que Deus me deu e me tirou ou tenta tirar

quem nunca sonhou em ser louco já nasceu morto
não merece nenhuma ressurreição
pra outra vida museu de cera ou de horrores
roda da rotina rodopiando geringonça de engonço frágil

só a loucura nos salva de nós e sobretudo dos outros
e dá o poder de levitação e vôo
que os sujeitos à lei da gravidade tentam roubar

a loucura
a mais bela e lúcida das profissões
é o céu e o inferno
o resto é limbo

rompe tréguas rompe diques
muros e miragens
guerra antibélica
desnortea o norte e o sul
o leste e o oeste
invencível

apocalíptico e aparentemente infantil
sou mil em um
me estarreço
locomotiva sem trilhos
eu eu eu eu eu eu
pássaros pássaros

pros valores desse mundo
tão de cabeça pra baixo
só se pondo de pernas pro ar
pra pisar no chão
e medir o adversário nos olhos
sua insignificância cânones e cânceres

daí o claune
colorido louco
histrião ou bobo da corte
o menos bobo da confraria
dar sempre cambalhotas
e olhar por entre as pernas
o revólver do dedo apontado
para o pavor da morte
dos que trazem a morte dentro de si
os eternos moribundos

se me ponho a raciocinar demais
numa dessas crises de bom senso
apesar ou por causa da morte
banco o iogue e planto bananeira
até que tudo volte ao seu devido lugar
o rei a rainha o bispo o cavalo
de novo no tabuleiro de xadrez

as nuvens aos meus pés
me fazem um bem enorme
o rei e a rainha insistem em reinações
enquanto piso no efêmero e no vazio

ainda chego se não na sabedoria da loucura
na palhaçada tempo integral
aprendiz de louco macaco de louco aqualouco

surpreende que o louco morto
seja igual todo morto
grito parado na calmaria suspeita
do seu rosto da família
meireles braga bragança álvares de albuquerque

o absurdo o inominado inominável
os olhos de espanto
enfim fechados
sol negro

suas mãos terríveis agora dormem
tocadas pela brisa que por um instante
lhe move os cabelos lhe aviva cílios e pálpebras

flores tantas cobrem o morto e confortam a família que teme
como seria justo
que a loucura pode não morrer e o rebelde novamente se rebelar
e rir de si e dos outros

entre as rosas emergem uns pés perplexos e perdidos no ar
sem atentarem para a extrema gravidade desse instante eterno

extraído de
Cartas de viagem e outras crônicas
por Mateus Trabelo

4 comentários:

Bic disse...

Nossa, que belo Mateus!!!
A propósito, parabéns bela chegada do nenê!!!!

Muito belo o poema, posso trabalhá-lo?
Valeu pelo comentário do ARVORE, Estou feliz em estar aqui também.

Abração
Bic

Fabi disse...

Que poesia incrível Mateus, adorei tudo.
Essa frase eu não vou esquecer:"Pros valores desse mundo
tão de cabeça pra baixo
só se pondo de pernas pro ar
pra pisar no chão."
Tu tem que aparecer no próximo encontro, você faz muita falta.
Beijos

Léo disse...

Esse poema é teu, cara-pálida? Muito bom, perguntei porque tu é sempre tão econômico nos versos. Cara, parabéns pelo menino. como vcs estão?

"surpreende que o louco morto
seja igual todo morto
grito parado na calmaria suspeita"

E o poema, que já brilhou como flor, também é filho dos loucos?

mateus trabelo disse...

Obrigado pelos comentários. Na verdade, o mérito todo é do Campos de Carvalho. Tenho há algum tempo estudado esse lance do sampler – palavra nova pra designar algo mais antigo que entrar de costas na saída do cinema pra não pagar entrada. Tom Zé fala na estética do arrastão. Burroughs e Benjor no cut-up. Tom Jobim copiava frases inteiras de Debussy. Paul McCartney sempre se inspira em outras músicas pra compor as suas. Rimbaud chupava Baudelaire. Drummond mamava em Murilo Mendes. Daí eu não tenho mesmo nenhum pudor em utilizar obras de outros autores. Não sei quem já dizia com razão que a melhor forma de uma obra de arte sobreviver é na obra de arte de outros artistas. Mas quem eu mais acabo sampleando sou eu mesmo. Viro e mexe copio meus versos. No caso desse poema que postei aqui, eu radicalizei. Porque geralmente eu sampleio um ou outro verso e coloco no meio dos meus “originais”. Sempre mudando, ampliando, reduzindo o significado. Tem um verso do Drummond, por exemplo, que eu samplei invertendo literalmente o sentido.Mas nesse estudo aqui – e a palavra estudo está aqui sem nenhum sentido inferior, basta ver os Estudos do Baden - eu não escrevi uma única linha, até onde me lembro. A única coisa que fiz foi editar esse texto do Campos de Carvalho, que é uma espécie de crônica/conto. De vera, editar é eufemismo. Embora acho que não tenha escrito uma única linha, eu cortei o grosso do texto, mudei vários versos de lugar, misturei tudo, buscando aliterações, litotes, ecos, o escambau, pra tentar, daí o nome de estudo, transformar um texto em prosa em um texto em poesia. Foi fácil porque foi com Campos de Carvalho. E é um estudo também porque recentemente, depois de anos, voltei a escrever letras de músicas, as quais muitas vezes pedem textos com uma retórica mais discursiva, mais verborrágica, coisa que há muito não fazia. Por último, nem precisaria dizer que está todo mundo livre pra fazer o que bem entende com ele. Campos de Carvalho agradeceria. No mais, tomem cuidado, qualquer dia sampleio vocês.