25/02/2008

Gostosa

A barata na boca da garrafa
A garganta da garrafa nas antenas da barata
Como os caninos de um vampiro
Prontos a sugar todo o líquido...
um túnel repleto de enguias e clarões ao fundo
fumegando sentinelas
O contorcer-se da existência
num corpo febril, louco, desvairado
Gargalos, garras, gargalhadas
Uma pele de vidro sem reflexos
Quase aos cacos
Com cara ainda de noite
A barata lambe a presa
Como se fosse a própria cria
Tudo úmido
Ah, esse líquido amarelado!
Talvez mais gelado
Do que a gostosa... E estúpida cerveja...
Gargarejos e(s)coando...
Mas ali resta um balcão
E um deserto de mesas e cadeiras.
Ouve-se uma voz talvez num tom suave:
Garçom! Desce uma!

Adeilton Lima

7 comentários:

Fabi disse...

Eu adoro como você descreve a cena,hehehe.
Tuas poesias são sempre ótimas.

Teatro em transe disse...

Beijão, Fabi! Obrigado!

Ciro disse...

Poemas estílicos são sempre de bom gosto, hehehe, e este não foi exceção :P

Ciro disse...

Opa! Quis dizer "etílicos", mas a palavra-valise "estílicos" também serve pra ocasião! Valeu pelo ato falho, dr Freud!

Bic disse...

O título já é bastante interessante, curioso...O primeiro verso me remete ao -é o tchan-, numa versão fabulosa e bastante crítica, muito bem!

O rítmo dessas imagens, as consoantes que brincam, imagens sombrias, vampirescas, uma fala poética das coisas da vida.

Gostei de "uma pele de vidros sem reflexos""..."a barata lambe a presa", "tudo úmido"...fui da atração ao asco, da sobriedade à embriagez...

Valeu Adê!!!

Léo disse...

Essa barata quando morre é o artista quando cria?

Teatro em transe disse...

Com a palavra Gregor Samsa!
abraço!