18/02/2008

Girassóis

(Os verdadeiros poemas são incêndios - Vicente Huidobro)

Num vasto campo
Semeio a minha loucura
A terra salta dos olhos
Como um pássaro em fuga
Mas levando algumas sementes.
Um espantalho gargalha
Com abutres entre os dentes
Pousados numa mesa farta
Para os lobos, as hienas e as serpentes.
Um uivo, um assobio, um arrepio tolo
Percorrendo o canto da boca
Uma baba, uma lágrima seca
Que tenta alcançar a lua vadia
No rasgo bêbado da noite.
Sim.
Num vasto campo
Rodeado por sombras ancestrais
Inicio o grande ritual
Acendo as velas no círculo do meu chapéu
E percorro o cheiro da madrugada
Minha amante fugidia,
Sempre disfarçada.
Meu pincel é um arrebol em relâmpagos
Centelhas de vida no ventre daquelas sementes
Girassóis na minh’alma
Girassóis, girassóis, girassóis!
Pelos quatro cantos do mundo
Uma pétala do meu delírio
E agora sou asas
Nos tons do amarelo
Sem medo mergulho bem fundo
Porque sei que as camisas-de-força
São meus pára-quedas...
E vou
E vôo
Vôo!

Adeilton Lima

5 comentários:

Fabi disse...

"Porque sei que as camisas-de-força
São meus pára-quedas..."
Que poesia linda Adeilton!
Adorei essa frase.
Genial.

Bic disse...

Girassóis!!!
Teatral, com cores fortes e sons percursivos!!!

"Uma baba, uma lágrima seca"

Adeilton, maravilhosa loucura!!

Sue disse...

O melhor é lembrar do Seu Adeilton recitando!

Léo disse...

O poeta rompe a casca do mundo e brilha lá fora como uma flor estrangeira... E seu trabalho é todo luz ou todo medo?

Teatro em transe disse...

É sempre um pouco de cada coisa... Mas a gente quer sempre estar na luz.
Abraço!