09/04/2010

Canção

São horas os minutos da canção,
aquela harmonia impossível,
são duas coisas bem distintas,
aquilo que escuto e o que sinto.

Bem poderia ser o calor insuportável do meio-dia,
a fome que alimento pouco a pouco,
o aroma esvaindo-se do corpo,
poderia ser tudo isso,
mas era uma canção tão simples,
tão conhecida, passo a passo,
que estranhei não ter fim sua melodia,
talvez porque quem dite a duração
das coisas seja o relógio cravado um coração desconexo,
buscando suas horas na história...

A canção acabou, mas o desejo não,
seguiu no ar as partes invisíveis dessa música,
e se ainda não retornou do delírio,
outras companhias irá buscar no infinito.

A angústia que me rói o estômago
também será esquecida, como um sonho,
até que se ouça novamente,
no interlúdio do desespero,
a vontade serena se despedaçar,
lançando pedaços afiados
entre meus ouvidos...

Nos quatro cantos - e no centro –
estarei eu, a perseguir das canções o fim,
para que venha o bom sono,
e a certeza radiante ilumine
o sonhador,
que desce, lentamente,
aos infernos onde se constroem
todos os sentidos e de lá retorna,
revivido, deixando passar,
senhor da porteira dos dias,
o fluxo imperioso da vida.

Sem mais nada sentir,
nem lutar,
deixando a canção acabar,
e o coração bater sossegado.

[São pássaros aprisionados no porão dos ossos...]

Leonardo Menezes
legome@gmail.com

4 comentários:

bota mais um disse...

Leo, a divisão em versos me pareceu desnecessária neste texto, porque ele flue como um poema em prosa...
Também não entendi - e aqui é um privilégio falar com o produtor do texto - o verso final: "São pássaros aprisionados no porão dos ossos" Achei ele instigante. A que se refere?
Um abraço, Eiliko

Kybelle disse...

"são pássaros aprisionados no porão dos ossos", adorei essa frase!bjos, kybelle.

Anônimo disse...

Bem, havia suprimido esse último verso, por achá-lo deslocado da forma narrativa do poema. De fato há uma sucessão temporal, que se quebra nesta imagem final. Os pássaros, símbola da liberdade, estão trancafiados aqui dentro, nos ossos, mas eles serão sempre potencialmente livres. Acho que foi isso que quis dizer.

abs

Léo Menezes

Fabi disse...

Gostei muito Léo, e esse último verso é um achado poético muito bonito.