26/03/2010

SOBRE COMO CULTIVAR A TRISTEZA

Levei uns dois meses para concluir. Baseado em sensações físicas, motoras, psicológicas e neurológicas, durante estados de legítima tristeza, mas não uma tristeza suicida e narcísica, e sim um spleen adimensional, parte de todos nós. Desejo tristeza a todos! :)
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A tristeza não é um avesso, é uma convicção.

A tristeza tem cor e volume de manifestação igual a estes bolsões roxos debaixo dos olhos.

A tristeza é quem aplica esta agulhada incisiva na parte dianteira e direta do cérebro.

A tristeza produz o empuxo que empurra as pálpebras, de maneira irrecusável, para o repouso, a dormência tão narcótica.

A tristeza conduz estes dedos que agridem o couro cabeludo, traumatizando o olhar, rebaixando o corpo.

A tristeza provoca irrupções cutâneas, estas unhas e peles de unhas, estes sanguinhos inconvenientes.

A tristeza dialoga com estas clavículas maltratadas, estas espáduas intocadas, estes ombros sólidos, fastidiosos, pesados.

A tristeza usa alicate e descasca a pele, debulindo nossa superfície, extraindo todos os componentes que convêm a nós; mas aos poucos.

A tristeza enxerga com um visão borrada e fosca, no olho direito, e incomodamente dupla, no olho esquerdo.

A tristeza cavalga neste fio horripilante que, verme interno, percorre os órgãos como uma possessão fantasmagórica.

A tristeza apavora, de assalto, as células, pulsantes pela vida, e as mitocôndrias, ávidas pelo trabalho.

A tristeza apodreceu o pé do meu pai.

A tristeza defumou meu tórax, fundiu pedaços estranhos de pele.

A tristeza faz cintilarem verrugas-flores, cicatrizes-fio-d’ouro.

A tristeza tesoura os pêlos do sovaco, e cada um dos pentelhos do saco.

A tristeza sopra e infla o pênis, mas lhe incide considerável excesso de drama.

A tristeza demora-se em observar as fezes, em espionar o cheiro acre do mijo, num ato paradoxal de perplexidade e desinteresse pelo mundo.

A tristeza move para uma preguiça caprichosa, aflitiva, cheia de tumultos e revoluteios de ação, de pensamento.

A tristeza produziu, insuspeita e diabólica, uma enxaqueca inédita, uma sensibilidade vampírica à luz apavorante.

A tristeza me impediu, qual a mão de uma censura ditatorial, de mergulhar no fundo da piscina.

A tristeza, longínqua, foi quem aplicou este corte de bisturi no meu abdômen.

A tristeza, isso com certeza, foi quem me provocou aqueles surtos de pesadelo e aqueles farfalhares fractais, tudo na cabeça.

A tristeza faz que vai me abandonar quando, células inundadas e fatigadas, largo meus olhos ao sono.

A tristeza é sempre mais maligna nos sonhos, quando se nos abandona o controle, e a dor de acordar e reconhecer é maior que a dor de viver.

A tristeza infla os tecidos do meu corpo, e me sinto espancado e prurido, e meus pensamentos porosos, e minhas partes, farelos.

A tristeza são ondas de solidão e abandono que vêm e voltam na praia antiga que é meu corpo.

A tristeza aplica uma massagem de lassidão, shiatsu invertido, que não aflige, mas toca os nódulos do corpo com shakras de prostração.

A tristeza tem um olhar, e isso surpreende, um olhar rebordoso e famélico; famélico não se sabe de quê.

A tristeza virou um tapa grosseiro no mosquito terrorista que só tem a função de tornar a tristeza ainda mais triste.

A tristeza se faz assim decepcionante porque carrega na espera, exagera na duração e inspira muito menos do que deveria.

A tristeza se lambuza nesse poder ingrato de adoecer a mente, mas manter a lucidez.

A tristeza se refestela porque nos apegamos a ela, ouvimos suas lamúrias, somos pai e mãe dela.

A tristeza aparta: das gentes, dos bichos, das plantas, das coisas, de si mesmo, de si mesma, de ti mesma.

A tristeza fabrica vultos, fantasmas, carniçais.

A tristeza, tão humana, intoxica, produz excessos, monstros, desumaniza.

A tristeza, película sobre a vida, de tão humana, cinde o tempo, agride o fausto do mundo.

A tristeza elabora uma razão antípoda, desgostosa sim, mas sagaz, intrépida.

A tristeza, inimigo digno, não tão venturoso quanto voluntarioso.

A tristeza trafega pelo hemisfério do ser, farfalha no brilho sombrio do impossível, dirige com elegância para o curso do impensável.

A tristeza é o eu que me imaginou triste.

A tristeza.
A tristeza.
A tristeza.


Ciro I. Marcondes

6 comentários:

Fabi disse...

Eu gosto muito dessa sua poesia.
É interessante falar da tristeza dessa forma, sem ser na primeira pessoa, sem ser passional. Parece uma tabela de sintomas, algo sobre como reconhecer a tristeza.

Anônimo disse...

Mais sexo! Menos Poesia!

Anônimo disse...

Ciro, eu gosto de como sua poesia beira o inaudito, o absurdo, e, às vezes, o cômico: "A tristeza sopra e infla o pênis, mas lhe incide considerável excesso de drama". Impagável!

Eiliko

Anônimo disse...

mais sexo e menos poesia! (2)

Ciro disse...

Porra anonimo, se revela aew, cuzão. :D

Kybelle disse...

esse anônimo tá que tá, hein? rsrsrs
gostei da leitura do éliko (rs)
no mais, um belo "tratado" sobre a tristeza!
bjos, kybelle.