26/01/2010

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linguagem

a palavra estala
na ponta da língua:
desejo.
a boca se abre,
quer libertar-se:
lampejo.
o som toca o ar,
revela o silêncio:
segredos.
ruídos se atrevem,
rompem a carne:
selvagens.

meus olhos atentos
te buscam sem erro:
no ouvido.
tua mão desafina,
confunde o caminho:
me toca.
tua língua entende,
engole a saliva:
garganta.
tua voz se levanta,
espanta meus ecos:
ruídos.

teus dedos conduzem
a nossa conversa:
avançam.
me enlaçam cintura,
coxas e seios:
vacilam.
sou pura dúvida,
não ouso dizer-te:
receio.
contamos bravatas,
velhas histórias:
nem creio.

suspendo as roupas,
verdades são nuas:
miragem.

e roço com gosto
minha fala na tua:
linguagem.
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11 comentários:

Anônimo disse...

A relação entre o (s) corpo (s), que pode também ser uma linguagem é tanmbém a relação entre os objetos da própria linguagem verbal, as palavras e o sentidos que elas carregam. Essa relação tão batida, saussureana, no entanto não deixa de existir a cada momento, no embate (até físico) de ordenação da linguagem. Acho que seu poema transita com equilíbrio entre um autoquestionamento poético e um caminho interpretativo que torne o poema uma forma de representar, sugestivamente, como os corpos, os nossos, contêm e criam a relação entre si. Li apenas uma vez, mas considero um poema digno de nota.

Menezes

anderson disse...

Leo, faço uma leitura diferente da sua. Penso que a relação entre os corpos é muito diferente daquela entre significante e significado, além do fato de que nem sempre o gesto é arbitrário como a palavra, pois se vale de uma mídia (o corpo) cujas possibilidades de expressão têm uma relação direta e imediata com o mundo, podendo inclusive articular ícones. Não arriscaria uma leitura tão hermenêutica do poema da Fernanda. A "linguagem"dali me parece mais condizente com um movimento que produz saliva, e não sentidos. Aquela de que nos fala Bandeira, na qual os corpos se entendem, mas as almas não.

bandeira disse...

ótimo comentário, anderson.

Anônimo disse...

Ei, Anderson, quando disse que a linguagem dos corpos era a mesma da verbal, quis dizer como caminho de interpretação do poema. No poema, a linguagem que se coloca é, de modo alternado, tanto a dos corpos quanto a do poema em si, puxando, inclusive, em auto questionamento - etapa aguda e crítica de uma metalinguagem - por isso fiz a observação e por isso considero o poema tão bom. A nanda faz um jogo entre essas duas instãncias, que, concordo contigo, são tão distintas entre si. Mas ambas (e talvez outras) estão lá. Não é?

Menezes

Léo Tavares disse...

a nanda sempre manda bem.

Raíssa Abreu disse...

Adorei o comentário do Tavares.

anderson disse...

Entendi seu argumento, Menezes. Quis apenas fazer um contraponto crítico para fomentar o debate, que penso seja um dos propósitos deste blog. Acho que além dos poemas, as leituras também são bons temas de discussão. De qualquer forma, se meu comentário foi lido e avaliado positivamente pelo próprio Bandeira, então valeu (rs). Abraço!

fernanda barreto disse...

gente, o papo tá bom!
acho que isso é saudade!
está na hora de marcar um encontro!!!

Anônimo disse...

Claro, a discussão é por aqui mesmo. Nossas leituras é que interessam ao grupo, pois ele só existe por conta disso. Acho que os comentários são uma ferramenta poderosa de nosso blog, pois todos nós somos, além de poetas, apreciadores (e às vezes criticos) de poesia.
Vê se aparece e no próximo encontro! Abs!

Menezes

anderson disse...

Leo, não fui aos últimos encontros porque não fiquei sabendo. Geralmente, era o Ciro que me convidava pessoalmente, mas tomei conhecimento dos últimos encontros depois que eles aconteceram. Vê se meu email está na lista de contatos e divulgação de vocês, ou me informa os canais que vocês usam, para eu ficar mais atento. De qualquer forma, minha presença nos encontros não será tão fácil agora que me mudei para Goiânia, mas pretendo estar constantemente em Brasília, e não perder o contato com vocês. Grande abraço.

Jorges Tavares disse...

Está de parabéns, Fernanda!
Tenho duas observações (pessoais,nada técnicas):
1º: Achei a segunda estrofe desnecessáriam,caso houvesse a omissão da mesma a poesia fluiria mais.

2º:

" me enlaçam cintura,
coxas e seios:
vacilam.
sou pura dúvida,
não ouso dizer-te:
receio."

Talvez seria interessante mostrar o ímpeto do camarada enlaçador,trocando o "vacilam" por "fervilham",acrescendo depois o "Contudo" antes do "sou pura dúvida".

Pequenas sugestões, como disse.

Abraço.