02/07/2009

Intervalo de asas

Nada mais vejo: nem pássaros, nem árvores,
nem gentes.
Esforço a vista para vencer a bruma
que nos rodeia.
(essa névoa não é má, é como terra
nos olhos das crianças)
E no entanto perdura!
Vem muito mais e se forma como deficiência;
pouco mais que um movimento involuntário.
No meio de tanta cegueira,
passo a tatear as coisas, evitando a queda;
E, a despeito da piedade que nos cerca
quando vemos a superação humana,
o que cresce nesse contato obsceno entre mãos e superfícies
é o medo terrível de não ver mais o mundo
pela distância necessária ao olhar.
De achar o que finalmente apague tudo no que acredito.
Esse medo vem do salto que implora à minha frente o desvario.
mas o que fazemos na vida senão desmedir?
Porque é de réguas a nossa mais
tenra agonia.
O homem existe como aposta dos deuses.
Nada de biologia.
Mais devaneio que razão,
mais metafísica que sentido.
A sensualidade do que nos escapa
converte-se em fetiche,
talvez seja por isso que tenhamos
essa cegueira consentida;
para ver os absurdos do dia
como contingências do real,
ou para tocar em corpos mal nascidos,
deformados, votando-lhes pureza e equilíbrio, certeza e paixões.
O que nos espanta, nesse torpor,
é vermos, cristalinos,
os nós e os engasgos do que é Belo.
A mesma névoa que persiste e não nos cega;
abre os nossos olhos!

Menezes

5 comentários:

Ciro disse...

Leo, entendo que esse é um poema de expurgo, possivelmente escrito e publicado de madrugada, que reflete os conflitos e inconsistências de seu labor alucinado do presente. Pressinto que ele te serviu mais como um tipo de desabafo lírico, alternado em fascínio e dor. Não achei dos mais significativos de sua obra, mas emociona o ate de escrever no meio de um trabalho em que sequer se tem tempo pra pensar em escrever poesia.

Mas não entendi "Porque é de réguas a nossa mais
tenra agonia." Se for o que estou, pensando, acho que ficou um pouco deselegante.

Ciro

Léo Tavares disse...

puxa, eu gostei do poema, bastante até. mas apenas sinto falta de uma estrutura digamos "mais velada", já que o poema fala sobre esta espécie de névoa interiorizada que se apresenta sobre as coisas, e se ele fosse mais metafórico e menos direto seria um contraponto interessante. algo como falar menos explicitamente da cegueira para que o leitor possa vislumbrar ela não como algo físico, mas interiorizado. algo mais conotativo, eu acho sempre mais interessante.

Léo Tavares disse...

ei... só uma coisa que não tem a ver com o poema do menezes, mas eu queria perguntar: como faço pra colocar o link do meu blog ali do lado, no Blogues Vizinhos, hein?
eu não tenho essa opção aqui no meu painel. acho que isso é layout do blog, certo?
se o administrador puder fazer isso pra mim, o endereço é:

http://petiteslettres.blogspot.com

ando mais satisfeito com minhas incursões na prosa, eu acho. e os comentários de vocês serão sempre bem vindos e muito úteis.
obrigado, galere

Sergio Trentini disse...

Parabéns, de verdade. :)

Transe Teatro disse...

Sou de desmedidas...
Abraço!
Adeilton