19/04/2009

GRANDE


Não há grandeza. Ponto final.

Não são grandes os quasares, maiores concentrações de energia do universo, que
engolfam bilhões de galáxias, que, por sua vez, são compostas de bilhões de estrelas e planetas, de grandeza tão reduzida que não são reconhecidos ou identificados; agulhas invisíveis neste palheiro preto e absoluto.

Não é grande a alma errática, de dimensões profundas, inconscientes, capazes de revelar
cada detalhe das terríveis e solitárias visões que registramos durante a vida.

Assim como não é grande também a própria vida, que não se diferencia em absoluto da
matéria inerte, que, também viva, pulsa, e ninguém sabe disso. Preocupamo-nos com o falecimento de animais, plantas, de nós mesmos, mas a morte das pedras, dos ventos, das águas, é mais inexoravelmente solitária e triste.

Desta forma, não grande o Grand Canyon, e é também irrelevante a Grande Muralha da
China (nem pode ser vista do espaço), apegados demais à falsa grandeza dos ventos geológicos e da falibilidade grosseira de impérios e escravos humanos.

Seria de estreita presunção, portanto, pensar que são grandes quaisquer trabalhos
humanos: há, por exemplo, o caráter raro daquilo que é o maior, o mais importante. É raro, e portanto escasso. Não é grande. Não foi grande o único Alexandre, o Grande, dada a sua raridade. Não é grande a literatura, um esforço de minudências inúteis, volúveis, frívolas.

Não é grande Charlie Chaplin, como havia assinalado Drummond. Seus curtos filmes,
suas longas e defeituosas inscrições em película, apontam para a modéstia, direcionam-se para a reclusão pueril, numa eterna e consciente auto-piedade (isso é quase grande, mas não se trata de grandeza).

Como tampouco é grande – ou foi grande – o próprio Drummond, enroscado até o
pescoço nesta mesma angústia adimensional, prisioneiro de sua migalhalma.

E, eu não poderia jamais esquecer, não é grande também a própria eternidade, quer
pensemos num caráter cosmológico das coisas (universo com início e fim), quer pensemos na pretensão absurda do eterno, na arrogância eterna do que não se deixa perecer, inevitavelmente.

Assim, não é grande meu corpo de 90 Kg. Não é grande a importância de qualquer
homem que tenha pisado neste mundo. Exemplo: não é grande Ronaldo, maior artilheiro da história das copas, assim como não é grande Romário, que se diz detentor da estupefante marca de dar dez sem tirar.

Não é grande a quantidade de partículas (trilhões de trilhões) que compõem toda a
matéria do universo, na mesma proporção em que não é grande a velocidade da luz, maior das velocidades possíveis (não sendo grande o impossível), percorrendo 360 mil quilômetros em um segundo, o que nos permitiria percorrer 1800 vezes a distância de Brasília a Goiânia neste mesmo segundo. Estas coisas assim se dão porque não são grandes os números, que são infinitos (não sendo grande o infinito).

Não é grande o amor, porque sequer existe, e não pode ser grande o que não existe.

E não é grande também a própria existência, posto que absolutamente banal, se
considerarmos também a pouca relevância da não-existência do mundo não-existente, que não existe afinal de contas.

Não é grande o poder da minha vontade, assim como não é grande este obviamente
efêmero espaço de tempo que constitui a minha vida. Espaço de tempo de pequena preciosidade. Pequena, mas, ainda assim, preciosidade.

Não foram grandes os insetos que matei, por necessidade ou crueldade, durante o curso
assassino de minha vida.

Menos grandes ainda foram as colônias de milhões de bactérias (Vejam só! Cada uma
delas, uma vida singular, tão pequena quanto a própria eternidade) que extinguí tomando antibióticos, remédios, ou mesmo somente arranhando minha própria pele.

Não foi grande, conseqüentemente, o primeiro fio de cabelo que se me desprendeu. O
primeiro ou o último jato de sêmen esporrado, com todos os seus espermatozóides natimortos, desperdiçados.

Seguindo essa linha de raciocínio febril, não é grande cada segundo que me ceifa mais
um pouco de vida, mutilando a continuidade abstrusa do tempo e da existência.

Não são grandes os vinte anos. Sabemos que não é grande o singular, modesto e ao
mesmo tempo imperioso grão de poeira, sobre o qual tanto já me debrucei. Sobre o qual tanto já estatizei minha visão num raio de luz, buscando entender o que é a própria grandeza.

Eu não poderia deixar de dizer, para não ser mal interpretado, que também não são
grandes deus e o diabo. Deus, pequena fantasia vaidosa da onipotência. O diabo, diminuto no chauvinismo do mal absoluto; mal que não se converte em bem. Mal que não faz bem.

Como o sexo lúbrico, contagioso, epifânico e letal, a grandeza só é a grandeza da
pequenez; e a pequenez só é a pequenez da grandeza.

Este é o ponto inicial.


(ciro inácio marcondes)

7 comentários:

Anônimo disse...

Grande Ciro...!
eiliko

Fabi disse...

Essa é das minhas preferidas!
Parabéns Ciro, essa poesia é demais.

mateus trabelo disse...

concordo - tudo a ver haroldo com o busão de higgs, o enorme!

Bob disse...

Obrigado, meu povo. Vocês sabem como se faz pra justificar os parágrafos pra que eles se pareçam com blocos mais homogêneos? Ficou meio irregular...

Nexo Grupal disse...

Sim, um texto ontológico, de dimensões poéticas, quase um transbordamento de imagens ancestrais... o legal é que, por mais que você tenha escrito sobre algumas obviedades (sobre a questão cosmológica, por exemplo, que nos remete a conceitos básicos sobre a astrofísica etc), o seu texto é conceitual-poético. Conceitual quando trata de fenômenos metafísicos, os descrevendo em pormenores, e tendo como base algumas questões que intrigam o humano em relação à suposta “dualidade”, grandeza-pequenez (vc recorre a conceitos cosmogônicos para encadear o seu fluxo de pensamento). Por outro lado, ele tem o tom poético, pois transmuta-se a partir de sua ou nossa sensibilidade/ consciência individual, se é que posso chamar assim, para uma amplitude transubjetiva da imagem. Mais ou menos isso: a anterioridade da imagem, enamora-se das emoções, até que chega à superfície, ou seja, à palavra propriamente. Confesso que não gostei “de cara” do texto, mas relendo algumas vezes, sim, ele tem algo realmente de “Grande”, ele é perturbador, visto que, estarmos nessas “condições” de eterno, de efemeridade, de pequenez-infinitude, só podemos ter a sensação de que: “a grandeza só é a grandeza da pequenez e a pequenez só é a pequenez da grandeza. Este é o ponto inicial”. Eis nosso desencanto para com o eterno! Bjos, kybelle.

BicMargarida disse...

Grande!

Gostei, mexeu de cara, reli...poesia filosofia e companhia, auto retrato...Forte! Um Parto!

Temas interessantes ditos com naturalidade no poema. Temas tabus!

Liberdade

Bic

DMSA disse...

Tdujoido!