24/03/2009

aporia

andando em círculos
apanhando a brisa do tempo
como tempestade
seguindo rasuras e rastros vazios
ruminando vozes e ruídos: mapas
narina enfurnada no
singelo vapor dos que passam
escalando certa seta que
aponta pra dentro reta
idílico horizonte perdido em
miúdos canais de excreção
esperam na fila a ordem do dia
assentando a poeira da história
com delicados gestos aprendidos
orando famintos por novas crias
cumulando penhoras e rugas desertas
alimentando a incompreensível fome
até que a morte os ampare
andando em eternos círculos
eles que tanto amam
metas e rodas delirantes
deslizam assépticos
pela lama fértil da vida
desprezando novelos
enaltecendo saídas
bradando: fora poesia!

4 comentários:

Anônimo disse...

Mas ela não sai!!!! Nem sairá! A arte vem da vida e onde houver vida haverá arte. Arte sem vida não é arte. Resistência! Utopia?

Legal Anderson, poste mais no blog.
afinal, o nexo é grupal! eheh.
abs
léo

Ciro disse...

Achei muito interessante o poema. Não gostei do final, mas não pelo motivo do Leo. Por mim podem bradar "fora poesia" sim (ironicamente ou não), e inclusive poderiam realmente extingui-la em certos aspectos (para que ela retorne com seu potencial aprimorado). O que não gostei foi que o final não combina com o resto do poema. É uma espécie de desfecho que quebra com a delicadeza, a sutileza, o enigma tautológico do poema.

Mesmo assim, gostei do caráter urobórico do poema: tantos gerúndios, a ação contínua, que nunca para, o repetir incessante da vida automática, a ratificação da inutilidade, do desperdício, da falta de sentido. O mais foda é estar consciente de que se é rebanho, e mesmo assim não conseguir escapar dele. É prisão sem grades da vida.

Belo começo por aqui, Anderson. Seja bem-vindo!

Anderson disse...

A meu ver a condição de rebanho implica a falta de consciência da condição humana. A vontade de escapar da vida é que promove a adesão ao rebanho. O rebanho oferece a prerrogativa de um pastor que o conduz, da certeza de um conhecimento sem os riscos e as dores da experiência própria. Rebanhos se orientam por dogmas. Vêem quem está de fora como um mal, uma ameaça. E muitos até ambicionam dominar o mundo, extirpando as diferenças. Fazer concessões faz parte da vida, mas não significa que vivemos todos em rebanho. Um dos grandes argumentos dos rebanhos é de que não há outra saída senão aderir a eles. No entanto, a vida não carece de saídas para aqueles que não a vêem como um problema. A forma mais rápida de assujeitamento é tirar a responsabilidade do indivíduo e transferí-la para outra coisa, tornando-o vítima de si mesmo. Vejo a poesia como uma experiência ontológica, uma forma de conhecimento que só é possível por quem de fato pode ser chamado de sujeito.

Anderson disse...

O grito no fim do poema representa de fato a ruptura do fluxo de movimento que a linguagem toma ao longo do texto. É um ato proposital, um ponto de contato com a realidade ali tratada, uma constatação de que as imagens poéticas do nosso tempo realmente não têm desfecho. O grito não vem do eu-poético, mas do rebanho, que vive num contexto onde não há tempo ou lugar para a poesia. Agora, se a arte ou a poesia seriam sinônimos de resitência a viver fora do rebanho ou a utopia dos ingênuos que acreditam estar fora dele, aí vai depender de cada indivíduo. Há todo tipo de poetas. Sem dúvida, muitos vivem confortavelmente em rebanhos.