09/02/2009

Taumatrópio

Como ninguém está postando nada por enquanto, pago aqui um pouco da minha dívida com o blog. É que não estou escrevendo muitos novos poemas, mas deixo aqui um dos meus mais recentes, já lido em algum encontro.

Taumatrópio*

Eu, que nunca nego a ilusão
já me sinto girando sobre um pedestal de ar.
E, ao virar e revirar as páginas da verdade,
não me localizo a não ser como potencial movimento.
Espessa cortina, a do real, me encarcera,
mas eu sou um vapor tangencial:
nuvem excitada, que se geometriza em suspiros virtuais.
Os outros homens estão parados
enquanto suas asas quase batem
por entre rachaduras de gelo memorial.
Eu beijo minha flor de odores exógenos
e escapo para a dubiedade acrílica das miragens.
Enjaulado, risco o giz de um cosmos esfarelado,
e as páginas da verdade,
sempre escritas com pequena alteração de detalhes,
revelam-se sonhos profanos,
versões rasgadas de um script tentaculoso.
Minha índole é a da machadada,
que vai ferindo e fissurando estes cipós loucos de teia real.
Desencantar este mundo indevassável,
de blocos de gelo e vapores escarninhos
requer elegante brutalidade.
Estar sempre um passo atrás destas linhas arredias
me faz amolar meus radares do real.
Para impedir a coagulação
deste devir coringa e metamorfo,
eu estupro seus sinais de verdade
antes que me afogue em litros de sangue em pedra.

Ciro I. Marcondes



* O taumatrópio é um jogo óptico inventando por John Ayrton Paris na Inglaterra em 1824 para demonstrar a persistência da retina. Consiste num disco com imagens diferentes em ambos os lados e um pedaço de cordel de cada lado do disco.

Ambas as imagens se unem puxando pelo cordel, fazendo-o girar com os dedos. O taumatrópio foi o precursor de outros instrumentos ópticos mais completos, com por exemplo o zootropo e o praxinoscópio que deram origem ao cinema. (fonte: http://www.oficinadaciencia.com/produto.php?id_produto=8505)

4 comentários:

Anônimo disse...

muito bom reler este poema, que parece desafiar as certezas aparentes que nossos sentidos às vezes nos infringem.

Anônimo disse...

Além isso, questionar a ilusão é parte importante da arte, já que ela também se serve da ilusão.
um abraço, Eiliko

Anônimo disse...

uma questão que certamente está contida no poema. Gostei. Eiliko

Léo Tavares disse...

Poema muito lindo, gostei da idéia do taumatrópio.