02/10/2008

Vaga-Lume

Em homenagem ao nosso grande Mateus Rabelo, tomo coragem e publico aqui um poema daquilo que há algum tempo atrás seria, para mim, um bloco de poesia pura. Foi inspirada em cabelos acastanhados.

VAGALUME

Juntam-se o vaga-lume e o sol porque ambos retornam fininhos tímidos miúdos ao início da criação e se reflorestam de árvores-labaredas imensas contidas num pote de maionese enferrujado aquecido sem saber que é protagonista das combustões atômicas botões de flores e gestantes disputando o espaço que o escuro libera para as forças que podem ser vistas de dia e o sol se incrusta de perto sem ser visto engatinhando nos fios de cabelo que se automatizam sedosos ordinariamente ligando as pequenas lâmpadas presentes em cada milímetro cúbico da queratina dourada resíduo cor de mel que se abre em flor em botões de fermento com cor de bolo porque bolo é o gás hélio que se emenda em agá e invade o imaginário com suas hélices de helicóptero suas plumas de hortência seus combates de hipopótamo grilos de paredes helicoidais hirtos de besuntância horrores de papelão hurtigas de motivos japoneses hursos pastando pelas florestas canadenses húltimos aspectos das caudas de leite e caramelo que brotam do sol lar dos multimilionários átomos de hélio ex-caramelados que pipocam nas luzes da bunda dos vaga-lumes que preferem adorar reverenciar pinicar os fios de cabelo princípio básico pêlos de gato e coisas cotidianas que vão crescendo sobre as sujeiras das unhas os convites de casamento a doçura das canções mais sóbrias solidificadas no húmus provocado pela chuva e pelas folhas que crescem ruminam criam pasto na cabeça pasto de fios silenciosos que laboram radicam sua força no colorido dos pigmentos mais religiosos e o vaga-lume rememora sai inescurecendo pelo vazio usina de força como o H da bomba agá do hidrogênio do hélio e das ferramentas mais ferrudas mais encarcaçadas cheias de bolor mineral que estão apenas para repartir o brilho mais forte do vaga-lume e a chama mais modesta do sol ambos vingativos contra a ditadura da parteira da nuvem sulfurosa dos arranjos musicais perfeitos quando o que resplandece é o gosto gentil do caramelo vértice obtuso entre a luz dos alimentos mais melados das cabeças menos pensantes luz essa que lampeja sobre os campos famintos reverbera nas tramitações das pedras faz implodir os vulcões do asfalto que palpita se move industrializa-se e retorna manso às escadarias da nuca à queratina das unhas à glândula tão mamãe que sobrevive na ponta dos bicos dos seios e floresce reconstruída nas fossas da luz no oráculo do escuro no plâncton do amor.

Ciro I. Marcondes

8 comentários:

Fabi disse...

Noossa!!
Sabe criança aprendendo a ler? Que lê bem devagar pra não deixar escapar nada?
Li assim!
Adorei!

Ciro disse...

Que bom Fabi! Este é um poema em que as coisas devem ser entendidas mais na sensação que elas provocam, com estas associações de palavras todas, do que propriamente pelo sentido que elas evocam. É um poema para tramitar no subconsciente, como se disséssemos: "não sei explicar a sensação que isso me provoca, mas estas palavras provocam uma sensação singular". É claro que tem uma dose de ambição, não sei se consegui realizar o que queria.

Fabi disse...

Bom, comigo você conseguiu. Foi exatamente isso, não soube explicar a sensação que me provocou. Adorei

Emilia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
mateus trabelo disse...

I. Ciro, fiquei realmente lisonjeado pela dedicatória na publicação do poema. primeiro por ter partido de quem partiu – e aqui vou pedir licença pra fazer aquele manjado jogo da rasgação de seda mútua, da jogação de confete um no outro – típica de qualquer organização, seja igreja, academia, empresa, governo ou grupo de poesia. terceiro, porque o poema me se mostrou muito caro. esse lance da abertura pro inconsciente muito me apetece. porque no final das contas é mesmo aquela frase do Emerson sublinhada pelo Waly LANGUAGE IS FOSSIL POETRY. se a poesia se acanhar se entregar pras tradições embalsamadas então já era. a poesia enquanto mínimo essencial da arte é o que muda. Garrincha. daí que na gaveta-clichê ser fácil simples cômodo ver o surrealismo ismo apenas como a escrita automática e Dali Ávida Dollar. e esconder as maravilhas dessa guardavante, tradição fluida, a la Proteu. poderia dizer do Vagalume o que Breton disse de Pèret, de ter conseguido fugir da “crosta de significação com que o hábito cobriu todas as palavras, e que não permite nenhuma possibilidade de jogo às associações que não as confinadas em pequenos compartimentos pela utilidade imediata ou convencionada, solidamente escoradas na rotina”. e do libertário Vagalume, nesse papo rápido, relevo ainda - do tanto que poderia relevar - a parada – e aqui eu não sei se é apenas conteúdo meu, mas que de toda maneira a abertura do poema me permite – da hiedra húmus águamor a infestar o muro, como el musguito en la piedra.

Anônimo disse...

like a rolling stone

Ciro disse...

trabelo mateus:

para mim, as palavras possuem dimensões diferentes, que podem ser aproveitadas em contextos diferentes. Uma destas dimensões é justamente um elaborar saboroso das palavras, um brincar quase pueril, como se a linguagem também possuísse algo de puro e simples jogo de montar, um castelinho de possíveis significações. Acho que a poesia também pode se aproveitar desta dimensão das palavras e torná-la estética. A experiência da "avalanche" de palavras se estetiza justamente quando percebemos que ser consumido por uma avanlanche pode ser uma deliciosa experiência poética. Logicamente, eu sei o que significa cada palavra nesse poema, mas minha expectativa é justamente que as pessoas se sintam mergulhadas nestes motivos mais sugeridos do que impostos ao leitor...

abraços!

Ciro

anna disse...

o vagalume tá piscando tenuamente agora... faz tanto tempo que vc num posta nada aqui no blog!
os comentários do mateus são sempre tão interessantes quanto o poema em si! figura!