23/03/2008

Eu não uso palavras como uso roupas,
Nunca sei a hora certa de usá-las.
Eu sei usar palavras como sei admirar a chuva; quando quero.
E não existe momento preciso para o querer,
Não existe inspiração, técnica, dom.
Existe o desejo, e a gente finge que acredita no encanto,
A gente esquece quem é,
E cria um mundo,
Uma imagem,
Que não divide com ninguém.
Escrever é deixar de ser um na multidão,
É sair dela,
É ver de fora e rir,
É rir da gente mesmo,
Pra depois voltar ao lugar comum,
Eu não sei usar palavras
Pra dizer o que quero,
Eu uso para dizer o que sinto.
Eu escrevo pra esconder,
Nunca para mostrar,
Mostrar eu desaprendi,
Eu espero sim que me encontrem,
Mas não dou pistas, não mais...
Explicar magoa.

Fabi

4 comentários:

Léo disse...

Nada como uma boa cutucada. Genial!
ah, eu também rio, eheh.

Mene

Léo disse...

"Eu escrevo pra esconder,
Nunca para mostrar,
Mostrar eu desaprendi"
É, arte é disfarce.
É fingir mesmo. É fazer de conta que o que conta é verdade...

"O mal da ficção é que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido." Aldous Huxley. O Gênio e a Deusa.

Menezes

Vitor disse...

ótimo! eu finjo mesmo! até ser de verdade eu vou tentando... =)
adorei!
Vitor

Bob disse...

Da Poética de Manuel Bandeira:

" - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação".

Bem, Fabi, estou pensando no seu texto mais como um desabafo do que como um poema propriamente. Um desabafo quase-teórico. Uma quase-poética que se insinua em prosa e em poesia. Creio que você segue a lição de Bandeira, mas eu procuraria deixar o texto com menos tom de diário...

É um grande desafio: falar da poesia emaranhando-se profudamente nas infinitas possibilidades que o poético tem para oferecer.

Ciro