08/01/2008

Mitologia

Se tu permites que te mate a lua alta
Fria e torpe como o chacal à espreita na floresta
Reivindico a mim exatamente o que me falta
O dia, a noite, e todo o tempo que te resta

Para que eu cuide do teu corpo enfermo
Enquanto bebo a fluidez do teu vazio em festa
E rindo sempre para um sol recluso e ermo
Da insensatez que o teu amor te empresta

De amar distâncias e abandonar o senso
Por uma luz difusa, vacilante e desonesta
Crendo pequeno o mundo e o amor minúsculo imenso
E o raso denso e ampla a fresta

O que eu suplico em desolado desejo
É o dia do teu profundo sono, a profana febre em tua testa
Meu desconsolo é o que vejo
A solidez do teu abandono a mim não me interessa

Neste mundo não terei a devoção
Que o teu olhar à Selene exalta
De uma estrela roubo a ilusão
De um dia imitar a luz da lua alta

Por um segundo que seja,
ao meu amor de sombra que não se cansa,
Que à lua esqueças e que a mim me veja
Um alvorecer nati-morto é a tua herança

O sol nasce, o dia chega e vai sem pressa:
O céu pesa onde ao oeste a nuvem corre
A tua amada a ti indiferente morre
Pelas mãos de Vesta.

Léo Tavares

2 comentários:

Alphonsus de Guimaraens disse...

gostey

eiliko disse...

"um alvorecer nati-morto é a tua herança": esse verso é sublime.