09/07/2009

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o sol que surge
dissipando a névoa
da noite no paranoá

não vai destruir fácil
as cicatrizes da noite
que
perdura pelos cantos
se cantos houvesse

solidão

lágrimas no pó

falta
de mar
...........apesar do seu campeonato de surf
de bar
de chances de descobertas
de afinidades eletivas

secura adentro


nas frestas da memória

saudade de casa

cosmópolis provinciana

ignoro

seus prédios espelhados
a la dallas mata passarinhos

sua briga entre arquitetos e engenheiros
entre caixotes e curvas no ar
entre a utilidade e a beleza

o tiro no pé na caserna

a louvação à operação condor

meninos ainda rezam em ak-47

quando o choro do clube
for de alegria

quando o clube for o anticlube
o aberto o da esquina

quando se espalharem o plano
das cidades parques
sem muros e grades

teus cobogós

quando os ciclistas
e pedestres tiverem vez

quando a cesta básica
tiver um livro

quando forem
abertas as casas
todas as portas
do coração

quando o amor
entrar na bandeira

quando a bandeira
for apenas a da porta-estandarte

a lenda do eterno berço
do país do futuro
se quebrou

a alvorada adentra a tarde
nasceu uma flor de asfalto

espanto erguido no ar

a esperança venceu o medo


despertam bromélias

o sonho sebastianista
de dom bosco
a riqueza inconcebível
...................aiainda para poucos

no lusco fusco

as sombras da contrarreforma
as sobras da falta de razão
capitanias hereditárias
o corporativismo o coleguismo
a brodagem a família
a religião
o apadrinhamento
apertos de mãos
tapinhas nas costas
fala baixo
o jogo encenado
as cartas marcadas

os signos escondidos
dos incautos súditos

o público privatizado
a regra do puxadinho

o temor reverencial
o culto à hierarquia
o respeito à gravata
ao carimbo

o prazer do poder

tal e qual uma falta de carinho
pra quem precisa de atenção

quanto de seus buzus
têm de navios negreiros?

ratos de comissões
urubus de funções
mendigos de bolsas

o sol a iluminar

as pedras evoluídas
não nasce fácil

parto difícil
barulhento
como uma sinfonia de buzinas


o artifício dos kalungas
sugere uma luz sutil
enquanto cresce a teia
do canto dos galos
até o conforto dos óculos escuros

o recado pelo muro
não é mais necessário

dos sapatos
ficam só os rastros

eldorado dos concurseiros

tuas dondocas de dourado
teus novos ricos
tuas alpinistas sociais
tuas putas discretas dos gabinetes
teus motéis lotados na hora do almoço

cadê tua camponesa?

teu parnaso é sertanejo?

outro amanhecer que não o do vale

és glauber tomando café da manhã

pelado no hotel nacional

és uma mulher inteiraça
com um tribal no rego
calangando nas pedras
da morada do sol


és uma senhora derrubada
mijando nas águas quentes
de caldas novas

és uma latinha boiando no poço azul


és um santo jogando dinheiro do alto do banco central

és duas mangas carlotinhas
a estufar a camiseta preta punk

os afogados da piscina de ondas

cadê teu neguinho do oludum
tua santa tereza
tua cidade velha
tua cidade baixa
teu centro
tua cidade?

o conic não basta


tanto espaço

e tão poucos lugares


o sol ainda não está a pino
não chega a todos as quebradas

mas já se sugere no campus
com as confrarias e tudo

o fogo no rabo do pereira
no porão do rock

e como se levar a vida na flauta
fosse um imperativo categórico

a luz tênue
na flauta nos dedos dela
nas gaitas e bandolins

o tempo infante
em tuas matemáticas
destinadas a viver melhor

a lâmpadacesa madrugadentro

asa delta

pousando no monumental
beirute com hora pra fechar

com uma peixeira

no afã de rasgar
de abrir uma fenda
brecha pro húmus
hiedra água

tiro faíscas do concreto
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6 comentários:

mateus trabelo disse...

poema nitidamente em progresso, espero os pitacos pra ir melhorando,

Anônimo disse...

gostei, é bem forte. não tenho sugestões, tá bem incorpado. eiliko

Anônimo disse...

Uma poesia literalmente brasiliense... Mas fiquei em dúvida entre o mateus e o adeiton... os estilos às vezes se confundem...

Menezes

BicMargarida disse...

UAU!

ADOREI MATEUS!

BELO!!!

bic

Anônimo disse...

Realmente fantástico. Agora relendo, é poesia discursiva sem perder o lirismo. Matou a pau, mateus. O melhor poema sobre brasília que já li, certamente. Crítico, ácido, cheio de imagens e protestos, social, intimista, voyeur, escrachada, sem vergonha. valeu mesmo.

Menezes

mateus disse...

como já tem tempo que não mexo no poema, indicando, ao que tudo indica, uma possível aproximação do final da sua maturação, deixo aqui registrado algumas referências, citações, paráfrases, samplers, e coisas que tais, de paulo henriques britto, jim morrison, breton, turiba, waly salomão, vinícius de morais, jards macalé, drummond, lula, nicolas behr, marcelo yuka, chico science, jorge antunes, joão cabral, raul seixas, ligatripa, josé paulo paes, luis fernando veríssimo, cachorro das cachorras, odette ernest dias, gabriel grossi, hamilton de holanda, paulo leminski