06/05/2008

Velho Espantalho

Eu me achava azarado e alguém disse “isso é falta de atenção”,

tropecei na pedra tantas vezes que achei que a pedra implicava comigo,

era um dilúvio de reveses,

a lua estava escura, o cão ladrou para mim,

como saberia onde pisar, disse comigo, na mesma hora que muitas coisas ruíam,

ver de novo o sol, sentir a maresia,

era tudo que mais queria,

encarar o destino de frente, cara a cara,

como é? Como será...

Sobrava atenção,

para os lados – entretanto,

dentro dos olhos,

resumia o encanto

encerrado, trôpego,

a cair em qualquer parte,

destruído, desnascido, delirante...

O azar, mal saído,

não me deixou em paz,

porquanto havia modo de calar o grito ameno da felicidade,

genuína,

quase um demônio,

despeitado,

esse agouro de meses,

desvalido,

pelo que em mim sustenta a

humanidade,

o que é belo, guardo em respeito ao trabalho

daquele que cria,

e também amuleto,

que muito pode me esconder atrás do brilho,

fujo das gotas vadias que molham minh’alma,

ainda que ame deitar-me ao rio enviesado,

assumo o resto do mundo neste gesto,

desesperado,

a fim de escapar à nuvem

nefasta que se põe em meu encalço,

maldizendo o dia cinza que cresce.

E

Pode ser que chova e o broto rompa em carne viva,

eu terei a força de olhar sobre os outros montes,

como aqueles que desejam novos mundos,

o peito cego, os olhos mudos,

a saltar os segundos de medo que antecedem

o horizonte...

O mundo passa bem aqui,

cheio de galhos retorcidos,

pede que lhe atravesse a tempestade,

há luz além disso, me diz,

as sombras nos mostram,

o bem-te-vi canta atrapalhado,

esperando o silêncio do agora.

“Venha para cá, menino mundo,

pula a poça,

sai debaixo da árvore,

esqueça o que te prende – sabe,

o azar é um velho espantalho...”.

Léo Menezes


3 comentários:

Fabi disse...

Eu gostei Léo.
Diz uma coisa, teve uma influência de Lavoura Arcaica né?
Adorei essa frase :tropecei na pedra tantas vezes que achei que a pedra implicava comigo.

Léo disse...

"O mundo passa bem aqui,
cheio de galhos retorcidos,
pede que lhe atravesse a tempestade,
há luz além disso, me diz,
as sombras nos mostram..."
Isso me lembra, de alguma forma, o que representa a carta "O Eremita" no tarot. É um homem que vaga solitário por ambientes como esse que me veio à mente enquanto leio o seu poema. Há uma representação latente de lugares desolados, de encontro à natureza, ao auto-conhecimento e à uma voz interior que nos guia de volta ao mundo, depois da tempestade. O Eremita leva consigo uma lanterna singela que lhe ilumina os caminhos. E algumas representações ele aparece sob uma árvore. Este trecho todo que eu assinalei me lembra essa passagem do Eremita por vales sombrios, mas tomando cada vez mais conhecimento da luz. Escrever poemas é meio isso, não? Levar por alguma paisagem como essa do seu poema uma lanterna metafórica, pular sobre a poça, sair do abrigo da árvore e encontrar o mundo. Viajei?

Vitor disse...

poema sobre o azar de estar no mundo? mas da sorte da oportunidade de atravessá-lo... e vamos em frente! Gostei muito do poema, apesar de falar do azar, ele não me soou pessimista, pelo contrário, me convidou para passos contínuos, como quando vc diz:
"Pode ser que chova e o broto rompa em carne viva,
eu terei a força de olhar sobre os outros montes,
como aqueles que desejam novos mundos,
o peito cego, os olhos mudos,
a saltar os segundos de medo que antecedem
o horizonte..."
Acho que está vendo uma luz no fundo e que é possível alcançá-la, mesmo tropeçando em várias pedras...

Acho que o Léo Tavares não viajou, comentou muito bem o poema, esse lance do que é escrever poema, acho que é meio que isso também...